Isaulina

Clara Arreguy

Para Tia Neném,
Dorcelina,
Teresa,
Maria Augusta e
todas as mães pretas
da nossa vida

Eu sô uma preta veia aqui sentada ao sole. Pelo menos era assim que o meu menino mexia comigo, quando passava pelo quintá e eu cascava batata. O meu menino. Um deles. Quale? O branco, craro. O Fubá.  Que meu fio preto se foi há tanto tempo já... E eu num sô uma preta veia aqui sentada ao sole. Diz o Fubá que é uma musga em minha homenage. Duvido. Quem vai fazê musga pr’uma veia preta sem dente e sem força inté pra cascá laranja?

A primeira vez que ele falô isso foi pra me provocá. Me chamava de preta veia quando eu nem era tão veia assim. Tinha o que, sessenta ano? Sei lá. Perdeu-se nas lembrança. No esquecimento, mió dizeno... Agora que passei dos cem, quem vai dizê que era veia tanto tempo atrás? Cento e um, cento e dois, quem pode sabê? Nunca tive documento, papele, nada. Minha idade foi carculada pela Grória, que era danada de inteligente  e dizia que minha data de nascimento  era “estimada”.

Da minha parte, sempre estimei essa data. Afiná, foi Grória que me deu. Me deu tudo: neversário, dia de festa, presente. Inté horosco ela me deu. Também, era uma data importante. O dia que cheguei à casa dela. Virô feriado nacioná. Primeiro de maio.

De nada lembro antes daquilo. Num me lembro da minha mãe. Meu pai é um borrão na solera da porta do Doutore Juiz, me entregano pr’ele, eu mais meu irmão.  Ficô viúvo com dois menino, teve que dá. Eu queria que o irmãozinho viesse junto, mas o Doutore Juiz disse que num podia. E num podia mesmo, fui vê despois. Ele também era viúvo, fiarada, e só Grória, a mais veia, pra cuidá de tudo, da casa, dos menino, de escola, roupa, remédio. Grória já crescidinha, mas ainda menina. Ainda não tinha casado com João, mas já tava noiva.

Meu pai, meu irmãozinho, o borrão se despedino sem adeus na solera do Doutore Juiz, o passado apagado com aquela borracha que Grória passava na lousa, tantos ano, ensina, corrige, conserta, ensina, repete... Grória era inteligente demais. Foi ela que me ensinô tudo. O Doutore Juiz falô assim: “Isaulina, você vai ajudá a Grória. Obedeça a ela, faça o que ela dissé e fizé”. E assim foi. Primeiro que tudo, mamadeira pro caçulinha. Grória tinha muitos irmão, mas tava pra casá. E o Doutore Juiz também já tinha noiva prometida. Assim que um se casasse, a outra também lá ia. Assim as criança não ficaria sem mãe...

Depois da mamadeira, ela foi me mostrano as panela, o arroz com feijão de todo dia, o gosto de cada um, bife fininho e bem passado, esse adora ovo mole, aquele tem alergia. Café fraco e coado na hora. Bolo pra de tarde. Bate a massa, e meus braço ficano forte. Coisa boa era batê bolo. Não demorô pr’eu aprendê a cozinhá goiaba e fazê a mió goiabada cascão da casa. Também, com tanta fruta no pé, só mesmo fazeno doce. Manga. Figo. Limão. Laranja. O Doutore Juiz podia tê criado a fiarada à base de malmelada. A gente lambia os beiço, eu e os menino.

Aquele dia que cheguei, mirrada e com medo, foi seno esquecido sem que eu fizesse força. Só fui percebê que o tempo tinha passado um ano despois, quando Grória mandô fazê bolo, cocada e pé de moleque, e juntô todo mundo pra cantá parabéns pra você pra mim. Foi o meu primeiro neversário. Pelo meu tamanho, determinô que seria oito anos. Grória, Grória. Tudo veio dela. Só não conseguiu me ensiná a lê. Tantos ano depois da morte de Grória, um dos menino me levô pro Mobráulio, mas também lá não adiantei muito. Aprendi a assiná meu nome, garatujei minha primeira carteira. Já tinha quantos ano? Quase setenta...

Em geral era bom na casa do Doutore Juiz, mas aquele meu primeiro ano deixô a não desejá, com o caçulinha seno levado pela gripe espanhola e a famia de novo de luto. Como podia me esquecê do pavô de fia e pai enquanto eu dava banho mode baixá febre, tenteava que tenteava fazê o pobrezim engoli uma gotinha d’água que fosse, e nada... Os bracinho molengano, os oinho revirano, a boquinha gulitano o que pusesse pra dentro, os úrtimo tremelique antes do suspiro finá... Foi a primeira vez que um anjinho se fez nos meus braço. A primeira de tantas, Deus meu.

Enfim, chegô a noiva e o Doutore Juiz se casô. Grória e João fizero o mesmo logo em seguida. Eles era jove e trabaiava muito, antão ela não me deixô ficá na casa do pai. Mandô a madrasta arrumá outra menina e lá fui eu com minha nova mãe, minha irmã, minha patroa – o que foi Grória pra mim? Tudo, uai. Grória e João. Eles era bão demais. Me davam o que eu percisasse, me ensinavam a fazê as coisa, a entendê as coisa, nunca me deixaro faltá nada. E eu era da famia. Seus fio era meus fio. Seus neto, meus neto. Seus sobrinhos, os sobrinhos  da Isaulina.

***

Grória e João tivero tantos fio quanto o Doutore Juiz. Era pra ser doze, mas alguns não vingaro. Num resistiro às febre, às diarreia, ao nó nas tripa. Tempo ruim, sem remédio nem médico dereito. Quantas vez o menino tinha uma fraqueza, uma dô, e a gente nem sabia o que era. Nossos chá, nossas erva, de nada adiantava. A gente virava a noite dano banho, ninano no braço. Eu num deixava Grória ficá na vigia. Afinar, ela percisava levantá cedo pra mode ir pra escola, tinha os aluno pra dá aula, as prova pra corrigi, antão ficava eu mesma velano o anjinho. Quantas noite, quantas cantiga, meu Deus! Ninano ora pra mode dormi, ora pro sono etelno...

Mas nem tudo era desgraceira naquês tempo de criação de fio. A gente se divertia, também. O nosso povo gosta de festa, de cantoria e de teatro. Eu sô de natureza alegre, de modo que aprendia as musga que eles tanto gostava, e ainda tirava do fundo do baú os canto mais antiquado, que lembrava nem sei como, e ensinava pr’eles. O teatrinho não podia sê feito male e male. Tinha que tê cenário e figurino, era o que eles queria e o que eu pensava. Nem que eu tivesse que virá noite cortano e costurano. Aproveitava trapo veio, roupa que não se usa mais, resto de cortina, e olha ali o costume pras personage das menina na cena do teatro.
Aprendi a costurá, craro, ajudano Grória a apertá pros pequeno a roupa que já não servia pros maiorzinho. O uniforme deste ano da Donlita vira o do ano que vem pra Nini. O vestidinho de festa da Nini no ano passado vai sê o traje de baile da Mana este ano. Cortá, apertá, costurá, cerzi, pespontá, bordá, dá bainha, fazê e refazê. Da cô preferida de uma, com a gola que a outra imaginô. Seguino o morde que alguém achô numa revista, copiano a estrela do cinema. Tricô e crochê. Roupa arrumada, um terninho, nunca faltô pros meus menino, pras minhas menina.

Engraçado mesmo foi quando as menina crescero e começaro, elas também, a se casá e a tomá o rumo de cada uma. Era uma disputa pra vê quem me levava junto! Todo mundo queria, mas enquanto Grória viveu não tive corage de sair do lado dela. Passava temporadas na casa de uma, férias na casa da outra... Nascia uma criança na Quica, lá ia eu ajudá nas primeira semana, fazê minha canja de galinha especiale pra muié parida, cuidá do bebê inté o imbiguinho caí... Ah, não se esquece de enterrá no pé da roseira. É garantia de rosa perfumada pro relsto da vida...
Não teve tempo mais difice que o tempo dos menino doente da Donlita. Os três desapurado, tadinhos, com coisa de tiroide – eu achava que tinham tiroide inté no pinto, de tanto que eram prejudicado, os pobre. No começo ainda andavam, mas aos pouco perdero os movimento, passaro a dá trabaio pra comê, pra limpá as sujeira da natureza... Nunca chegaro a falá. Só me chamavam gritano Ina... Ina... Era o jeito de me pedi colo, mamadeira, laranja pra chupá, o que fosse. Aí foro cresceno, os pobrema se compricano, já dependiam da gente pra tudo... Quanto sofrimento, Deus meu. Noites de dô e gritos, sem força nem pra morrê. Precisaro completá quinze ano, um por um, pra consegui, por fim, descansá... Prefiro nem me lembrá da agonia daquês menino no fim da vida. Num conto, não.
A vida num foi face pra Grória e seus fio. Mas alegria nunca fartô. Turma religiosa e festeira, cheia de fé e de amor à vida. Sempre se amparano uns aos outro, ajudano os pobre, estendeno a mão, acoieno um parente em dificulidade. Quantas vez fomo, eu e os mais novo da escadinha de fios, dormi na sala pra dá lugá a uma tia veia que viesse pra cidade passá uma temporada em tratamento de saúde. Quantas vez uma sobrinha ou prima veio morá conosco pra mode estudá, pra tê uma refeição decente. E a gente cuidano, zelano, aprendeno o gosto de cada um, as preferença, pra mode fazê um agrado e num deixá ninguém com sodade de mãe.
Eu nunca fui fazedeira de pouco caso. De casa em casa, tia de todo mundo, madrinha de uns tanto. “Isaulina, vem morá conosco. Nossa casa fica tão sem graça quando ocê volta pra Vovó!” E tome bolo, doce, canja, empadão, pastelão, papa de mio, arroz-doce, arroz de forno... Eles ficano fortes e corados, eu cada dia mais gorda. Por isso que o meu menino fica me chamano de preta veia sentada ao sole. Porque o joeio dói, viu? Num queira sabê. Bom, agora dói menos, depois que me fizero aquela operação e me pusero a tal de pótrese no joeio. Agora pelo menos posso andá mió, com uma bengalinha, e nem perciso mais tomá bizeró.

***

Mas pensam que eu num tive minha pópria casa e meu póprio fio? Tive sim. Tive meu menino preto, fruto do meu casamento, que eu também arrumei marido. Era um rapaz bem apanhado, retinto, mas bonitão, que se encantô pelas minhas bochecha redonda e me fez a corte na missa, depois na jinela, inté tê consentimento de João pra ir em casa me namorá no portão, as menina vigiano pela fresta. Aristide era o nome dele. Com boa intenção e permissão de Grória, me levô pro altá. E logo logo veio o Tidinho completá minha felicidade.
Difice pra mim foi deixá a casa da famia. Como eu podia fazê isso com Grória, que era tudo pra mim? Ainda bem que arrumamo um barraco pelto de casa. Assim eu podia acordá cedo, cozinhá a malmita pra mode o Aristide levá pra obra da Rio-Bahia, onde ele trabaiava. Despois corria pra casa pra mode ajudá a prepará os menino pra ir pra aula. Dava tempo. De tarde, voltava pro barraco antes que o Aristide chegasse, pra tê janta pro homem cansado. Fomos feliz, apesar da sodade que os menino tinham de mim na hora de dormi. Num acostumavam sem meu mingau de aveia.

Quanto mais me contavam que choravam pra dormi, mais eu chorava cá no meu canto. Mas obrigação da muié é cuidá das coisa do marido, antão eu me disdrobava pra não deixá faltá nada pra ninguém, nem cá nem lá. Foi mais difice quando o Tidinho tava pra nascê, eu ainda mais gorda do que já era sempre. Mesmo assim me arrastava pra cumpri minhas obrigação, com a famia e o marido, e as coisa se ajeitava. Tempo bão, mas durô tão pouco! O pobre do Aristide num teve sorte num acidente na obra. Pensa um caminhão de terra despejado em cima d’uma criatura? Pois no movimento  de um tratô dos grande o barranco cedeu na obra da BR e o meu marido foi soterrado, ele mais três colega. Quatro moça deixadas viúva, um monte de órfãozinho como o  meu Tidinho.

Ocê quer que eu lembre e conte, né, seu Fubá? Pois antão tá. Chegaro lá em casa com o corpo dele todo enlameado em cima d’uma maca, padiola, sei lá. Primeiro o susto, depois chorei e chorei. Mas alguém tinha que dá banho no corpo, tirá aquela lama toda. De modo que engoli o choro. Num tive trabaio pra escoiê o telno pra vesti ele pras despedida. Era o do casamento. O único que ele tinha. Ficô ainda mais bonito, limpinho e de telno no caxão.

É, quem tem fio pequeno pra criá tem mais é que enxugá as lágrima. Num fiquei uma noite sozinha naquele barraco. Grória e João foro lá me buscá logo despois do velório e do enterro. “Isaulina, vorta pra casa que percisamos docê e ocê de nós.” E fomos, eu mais o Tidinho. Meu fio foi criado junto com os dês, irmão com irmão. Sem diferença por sê preto e pobre, fio da criada da casa. Tanto que Grória ensinô pr’ele as letra e os número e arrumô borsa na mió escola militá pra ele não ficá sem futuro. Em pouco tempo, oia o sargento Tidinho todo engalanado, bonitão que nem o pai. Como o menino me lembrava o Aristide! Nunca mais quis sabê de marido. Fiquei dramatizada. Não ia guentá a dô de outra separação.

A gente se apega e depois tem que dizê adeus. Porque meu menino puxô o pai inté na vida curta. Deus quis que ele tivesse uma doença de coração inda tão novo, e num desse tempo nem de chegá a tenente. Já tava inté noivo, pensano em casá e em me presentiá com neto, quando passô male no quarté e chegô morto no hospitá. Meu menino preto, meu pobre anjinho que num conheceu pai nem fio. Outro bonitão de falda no caxão. Se num fosse a famia de Grória e João, num teria tido nem afeto nessa vida. Mas teve. Ninguém aqui em casa nunca vai esquecê o Tidinho com seu unifolme, o Tidinho com seu quepe na cabeça,  o Tidinho fazeno baliza na parada de Sete de Setembro...

***

Do meu irmãozinho que sumiu na soleira do Doutore Juiz nunca mais tive notícia, mas nem por isso fiquei sem famia de sangue. Deu-se a descobelta da forma mais engraçada. Vô contá. De vez em quando, no tempo das féria, a famia ia toda pra praia. Uns alugava casa grande, com muitos qualto e muitas esteira pras criança passá um tempo ao sole e na água do mar. Inté eu me aventurava, de vestido largo, a banhá os pé naqués ondinha espumante e sargada  do Esprito Santo.

Pois bem, uma bela manhã de sole, lá estava nós brincano na praia, eu de oio nos pequeno pra não sumi ninguém, cascano umas laranja, quando ouvi a algazarra de riso dos maiorzinho. Era uma moça que lá envinha, gorducha, co’a bunda grande, tão parecida comigo qu’ês num resistiro e mexero com ela: “Oia a fia da Isaulina, oia a Isaulina novinha...”. Parecia tanto comigo que inté no bom humor era eu escrita. Começô a ri e veio indagá por que tanta mexeção. Eles antão trouxero ela e me mostraro pr’ela. Nós duas rimo até as bandeira despregá! Parecia espeio uma da outra – com uns ano de deferença, craro.

O Fubá, sempre inxirido, logo começô a especulá co’a moça, co’a Jandira. Qual era o nome dela, nome de pai e mãe, d’onde envinha, e descobriu que o avô da Jandira era ninguém menos que o meu pai. Conversa vai, conversa vem, ficamo sabeno que meu pai havia se mudado pro Nolte de Minas, que lá se casara e tivera duas fia, seno uma a mãe daquela jove. A outra, mais veia, entrara prum convento e agora era irmã de caridade no interiô de Goiás. Magina a emoção: descobri que tinha famia, naquelas artura da vida! Do meu irmãozinho a Jandira num sabia nem da existência. Meu pai já havia morrido, assim como minha irmã, a mãe dela. Mas eu tinha uma irmã fleira em Goiás e uma sobrinha, empregada doméstica, em Tarumirim!

Ali mesmo na praia o Fubá anotô endereço, telefone e tudo. E indesd’esse dia, com a ajuda da meninada, comecei a trocá correspondência co’a Jandira. Fiquei sabeno da sua vida, de seus sonho, do moço que ela namorava e que despois de um tempo virô o pai dos fio dela, meus sobrinhos-neto. Foi uma das fia dela que me escreveu, anos depois, pra me contá da morte da minha amada sobrinha, aquela que me veio nas onda do mar morno do Esprito Santo.

A minha irmã fleira também consegui encontrá. Os menino descobriro, pelas informação da Jandira, a cidade onde ela vivia. Procuraro o convento onde ela trabaiava, pegaro o número, ligaro. Deve tê sido um susto pra Irmã Gabriela ouvi, do outro lado da linha, que era da parte da Isaulina, uma irmã mais veia que ela num conhecia e que vivia assim e assado em Caratinga, ou mió, em Belzonte, que a gente já tinha mudado. Que eu queria ir lá pra mode conhecê ela pessoarmente. Meio sem jeito, engasgadas pela emoção, nos falamo ao telefone e combinamo tudo.

Dois mês despois, Grória me deu passagem e mandou a Zezinha ir mais eu. De modo que fomo pará em Anápis, onde a Irmã Gabriela era fleira da ordem das Clarissa, com seu lindo hábito branco e aquela cara de anjo. Num se parecia comigo feito a minha sobrinha Jandira. Ao contrário de nós, era miúda e magrinha. Bondosa, serena, me contô que nosso pai havia vivido muito, trabaiado na roça numa fazenda perto de Monte Claro e morrido bem veinho. Também num tinha notícia do nosso irmãozinho, nem sabia da existência dele. Decelto meu pai deve de tê dado o menino pra alguém, ou senão morreu pequeno, como era tão comum naquele tempo, e o veio preferia não falá mais dele. Nem de mim, pelo jeito.

As lágrima do nosso encontro, no entretanto, foro somente de alegria. O tempo já tinha passado e as tristeza da infância era lembranças esfumaçadas nas noite de pesadelo. Agora a vida nos sorria, eu tinha minha famia de adoção, que eu tanto amava num amore correspondido, o Tidinho já era uma sodade gostosa de senti, quando a gente via uma parada de Sete de Setembro, uma baliza bem feita... Também com a Irmã Gabriela troquei calta enquanto ela foi viva. Quando recebi do convento telegrama comunicano seu passamento, já era vespra do sétimo dia. Mandamo celebrá missa solene pr’ela, uma santa criatura que espaiô o bem enquanto teve por essa Terra.

***

Comecei a contá essas história por causa da perguntação do Fubá, fio da Mana e um dos menino mais chegado comigo. Indeusde neném ele não largava de mim. Por causa do cabelinho louro, pusemo nele o apelido de Fubá, Fubareco. E assim vem seno, ele garrado na minha saia, me puxano pela mão, me assuntano as coisa. “Ina, onde foi que ocê nasceu? Ina, quando foi que ocê nasceu? Ina, do que é que cê lembra de primeiro?” E por aí afora. Ô menino perguntadô. Agora já tá veio também, já tem fio e neto, mas cismô de fazê firme, trabaiá no cinema, e inventô de firmá a minha vida.

“Ina, ocê lembra da primeira guerra?” Sei lá se era a primeira, a segunda ou a terceira, menino. Só sei que lembro da guerra. “Com’é que era a guerra, Ina?” Era assim: o Gastão teve que se alistá no Exércio. Nós ficamo morreno de medo, uma choradeira, rezas e promessas. Ele viajô pra Bahia, ficô lá encurralado num navio esperano a hora de sê mandado pra Itaia. Ocê sabe, né, a Itaia é a terra do seu tio Uíra. Era lá que os brasileiro ia lutá a guerra. Antão, o Gastão ficô esperano, esperano, inté que a guerra acabô e ele não percisô dá nem um tiro. Foi um alívio danado.

“Só isso? Que mais?” Ah, a gente passô apelto naquele tempo. Fartava coisa, tinha o cartãozinho do racionamento. A gente juntava pra comprá cada famia sua cota de comida, de querosene pro lampião, sei lá, já esqueci. “E ocês sabiam o que tava aconteceno na Zoropa durante a guerra?” Craro, uai. A gente ouvia no rádio. Ficava todo mundo em vorta do rádio. O seu tio Mirto, que era o mais inteligente de todos, entendia ingrês, francês, alumão, antão ouvia uma rádia, outra rádia, outra rádia, e ia contando pra gente. No fronte tale, aconteceu isso, isso e isso, avançamo. No fronte quar, perdemo posições... Parecia novela de rádio ou futebole, só que todo mundo torcia pros aliado e contra os alumão.

“Ina, quando foi que ocê viu luz elétrica  pela primeira vez?” Ô menino inxirido, tem coisa que a gente esquece. Faz tempo demais. Num me alembro quando acendero os primeiro poste elétrico na rua de Caratinga, mas quando chegamo no Rio de Janeiro já era tudo iluminado. “Ina, como foi que ocês foro pará no Rio?” Ô meu Cristo Rebentô, mais história pra contá pra esse Fubareco metido a autista de cinema. Disliga essa praga aí, menino, que eu tenho mais o que fazê.

“Tem nada, Ina, ocê é uma preta veia aí sentada ao sole...” Assim ele fala comigo, dizeno que tem musga feita em minha homenage. Fomos morá no Rio muito despois de sair de Caratinga. João saiu do caltório da famia e foi pro caltório de Itabirito. Grória conseguiu transferença do grupo escolá e lá se foi a famiage toda, e eu junto. Naquele tempo era só o Ãozinho, a Donlita, o Gastão e a Nini. Mana e Quica foro nascê em Tabirito. Despois, Grória passô uma temporada em Belzonte, estudano com aquela professora russa que diziam sê uma “sumidade” – mas quem vivia sumida mesmo era Grória. Nós ficava, eu mais João, cuidano das criança em Tabirito, e ela só ia no fim de semana, de trem, uma luta danada. O Ãozinho foi com ela estudá na capitá.

Despois que as duas nascero em Tabirito, nós mudamo todos pra Belzonte. Foi um tempo bom. A cidade era bem maió que as duas onde a gente tinha vivido, mas ainda era tranquila, sem muito carro. O bonde ia e vinha, a gente atravessava o centro pra vê o comércio da avenida, com aquelas arvres enormes! Mas num era perigoso. Tá certo que a Nini foi atropelada aquela vez, mas num chegô a se machucá. Foi só susto. A gente mais riu que chorô com o acontecido. Com as cara branca feito cera – da Nini e do chofé do tomove.

O João trabaiava em banco, naquela ocasião, e foi transferido pro Rio. Por isso fomo pará lá. Nessa época já tinham nascido a Gó e a Zezinha. Só a Neusa foi nascê carioca. “E por que vortaro tão rápido de lá? Não ficaro nem dois ano... Não era boa a vida na beira da praia?” Se ao menos a gente morasse na beira da praia... A gente morava longe, bobo. Tinha que pegá ombus pra vê a cara do mar. E num foi boa a estada lá, não. Acontecero coisas horrives!

“Que coisas, Ina?” Ocê já ouviu falá de ditadura, seu Fubá? “Eu já. Num sabia era que ocê também conhecia isso.” E não? Pois o João trabaiava do lado de um lugá onde eles trancava os comunista e quebrava eles de pau. Dia e noite se podia ouvi os grito dos comunista. O João, a vida toda catolco e temente a Deus, não guentava ouvi tanto sofrimento. Chegava em casa arrasado e falava com a gente: “Grória, não vô dá conta de ficá naquele trabaio. Perciso saí dali”. “Mas ir pra onde, João?”, ela indagava, tristonha, agora que tava bem colocada numa escola do Rio Comprido. “Num sei, mas vô embora nem que seja de vorta pra Caratinga...”

E assim nós fumo. João mais eu na frente, com as menorzinha, que ainda não tava na escola. Deixamo pra trás Grória e os grande, que aguardava o fim do ano coletivo, pra ela mais eles conseguirem transferença. Chegamo em Caratinga com u’a mão na frente e a outra atrás. Nos acomodamo na casa da dona Chiquinha, mãe de João, enquanto ele negociava com o irmão pra vortá pro caltório que tinha deixado uns ano antes. E fumo procurano casa pra recebê o restante da famia no fim do ano. Um pedaço difice, mas um alívio pro pobre do João, que nunca pensô tê que testemunhá tortura com os ouvido... Naquele ano ele falô tanto nessas coisa de ditadura que eu aprendi e nunca mais esqueci.

***

Aquês tempo de Caratinga, com as menina virano moça, fazeno festa e arrumano namorado filme, nos dero os mió dia de juventude. Elas era inteligente, alegre e sadias. Formosas que pareciam mocinhas de fita seriada. Em pouco tempo se casaro Donlita e Nini. Logo o Ãozinho foi simbora pra capitale, pra mode virá jornalista importante. O Gastão passô por aquele perrengue da guerra, mas na vorta, curado da tubelculose, também arrumô noiva e fez famia. Dez anos despois, com a mudança de um por um pra Belzonte, restô a João e Grória, comigo a tiracol, vortá pra perto de todos. João empregado em banco, Grória primeiro como professora mesmo, despois orientadora, cordenadora e diretora de grupo escolá.

Enquanto isso, casa uma, nasce neto, o Geogeno, meu Deus, coisa mais linda! Casa outra, mais dois neto. E a famia se espaiano, Gó e Quica pro Rio de Janeiro, netos cresceno, as menina percisando da minha ajuda, eu pra lá e pra cá, de ombus, de trem, ô sodade do Vera Cruz! A gente levava a noite inteira entre a Praça da Estação e a Centrale do Brasil... Sete hora da noite aqui, sete da manhã lá... Nesse vaivém, aconteceu uma coisa horrive: Grória vinha de temporada no Rio com os recém-nascido de Gó e Quica quando o ombus faz male uma curva e encapota do outro lado da pista. Grória bate com a cabeça, se lasca toda, mas graças a Deus se sarva. Só que, dali em diante, começa a senti uns branco, a esquecê o fogo aceso no fogão, a interrompê uma fala, sem sabê o que fazia ou dizia. As coisa vai piorano, a gente num entendeno nada, inté que as menina acha mió leva ela pros médico, pra mode vê o que se assucedia.

Grória descobriu que tinha na cabeça um tumorro do tamanho d’uma laranja. No encapotamento, o coiso se mexeu e agora desafetava tudo aqui na cabeça lá dela. Era o que me expricava os menino, com conversa de célebro, função não sei das quanta. Seria perciso uma operação de horas pra mode retirá o negócio, com o coco seno serrado e despois colado. Deus me livre de senti o pavô que me vei quando sube de tudo isso. O que seria de mim se alguma coisa acontecesse co’ela?

Quando acordô da tale operação, Grória num se alembrava de nada do que tinha ocorrido indeusde a viage ao Rio, quase um ano antes. Estranhô de vê a Nini com neném de colo – num recordava da barriga da fia. Os úrtimos mês tinha sido completamente apagado da ideia dela. Em compensação, num tinha mais aqueles branco, num esquecia mais nada. E num mexia um lado. Nem pé nem mão. Num enxergava com o oio dereito, não ouvia com o ouvido dereito. Seus movimento era só o que ela dava conta de fazê com o lado esquerdo. O que seria dela se eu não tivesse do lado para ajudá ela a andá, a comê, a banhá, a vesti?

Como sofreu a criatura, com aquela inteligença toda, e o corpo pelas metade. Não pôde fazê nada quando João caiu morto d’um derrame na cabeça. Nosso susto foi tão grande que as lágrima só começaro a corrê de noite, quando ele num vortô pra dormi. Fios e fias cuidaro do velório e do enterro. Grória e eu, apoiadas uma na outra, sentimos perdê a outra metade que ainda  lhe restava. Ela num tinha força nem pra ficá de pé. Nem com meu braço a ampará. Ela só alembrava d’uma poesia que João lia pr’ela sobre uns císneis que tinham prometido segui juntos pela eternidade e acabavam se separano despois de cinquenta anos  de harmonia.

A viuvez de Grória durô mais de dez ano. Fios e netos liam livros pr’ela, a gente repetia, aos berro, as cenas da novela de televisão pr’ela consegui acompanhá as história de amô. Padres amigos rezava missa na casa dela, levava comunhão, ouvia sua confissão de muié sem pecado. Ditano, conseguiu escrevê um livro sobre as desventura d’uma professora no interiore de Minas, naquês tempo em que male tinha lousa, giz e carteira.

Perdemo Grória num início de outubro. Seu corpo finarmente se cansô. As ideia já tinha se perdido nos úrtimos mês. Despois de oitenta e seis anos de brio, tava viveno numa caduquice inté engraçada. Via anjinhos na solera da porta, seminaristas no jardim, gente que tinha morrido há tanto tempo. Queria porque queria consultá com o dotô Meira, seu médico, morto tinha mais de trinta ano. E se alguém ameaçava chamá o dotô Meira, ela rebatia: “Não seria mió um médico vivo, minha fia?”.
Inté hoje num sei como sobrevivi ao passamento de Grória. As menina não me deixaro pulá no caxão e segui com ela. E era o que eu faria, num tivesse uma fila de desesperadas, entre sobrinhas, primas, amigas, ex-alunos, parentes e protegidos que se despedia da maior benfeitora que tivero  na vida.

***

Ocê notô como eu tô tão deferente? Ocê notô que o Brasil tá tão deferente? A água lava, lava, lava tudo, só não lava a língua  do povo...

Com a morte de Grória, sua casa deixô de existi e eu fui vivê com Donlita, que já tava viúva e percisava imensamente do meu apoio. Os três fio doentinho já era só uma lembrança triste e doce. Os dois sadio, Geogeno e Mira, já criados e casados, a Donlita inventô de tê outro menino. Era o Leio, um pretinho magricelo que ela pegô das mão do Gastão, que por sua vez recebeu do colo d’uma mãe sem condição de criá ninguém, nem a pópria si. A Donlita daria conta, sozinha, de cuidá de um bebê? Craro que não. Ela percisava de mim. Lá fumo nós.

***

O tempo passa depressa, os ano se assucede, as famia se cria e desfaz, por morte ou separação, e a gente ali, filme, com o colo gordo, macio e cheroso pronto para acoiê quem chega. De preferença o que perdeu a caçulice. Craro. Pois quando todo mundo só tem oios pro novo nenenzinho que acaba de chegá, quem vai consolá o penúrtimo? A Isaulina, é craro. Num consigo vê sofrê menino pequeno, quanto mais quando ele não tem quem oie pr’ele.

E num é que co’a ajuda do meu Fubá consegui minha aposentadoria? Custô, eu já tava com mais de oitenta ano, mas enfim o governo, o esquitute de previdença, sei lá quem, reconheceu meu dereito e passô a me pagá um salarim todo mês. Foi com meu póprio dinheirim que consegui fazer muitas viage, indo atrás dos fio, dos neto e dos fio dos neto de Grória. Gente no interiô de Minas, Quiricaba, Poço de Calda, no  Rio, em Brasia, no Ceará! Fui pará em  Aparecida numa romaria! Fui inté no Piraguaio, prumas comprinha com minhas amiga... Panhava o ombus na breviária  e lá ia eu, toda prosa, batê pelna pelo  mundo. É de vera.

O Fubareco é um que foi morá em Brasia. Lá ele começô com esse negoço de fazê firme e cismô de contá minha história. É um tar de gravá no gravadore, tirá retrato, videocassete, sei lá como chama essas coisa. Tanta conversa fiada! Tanta lembrança boa e ruim que ele me pede pra desenterrá. Diz que eu num posso ficá que nem uma preta veia aqui sentada ao sole. Diz que tem musga com essas coisa de preta veia sentada ao sole. Acho que ele tem medo que eu morra cedo. E eu me arrastano com minha pelna sem jeito – bem mió agora que operei o joeio e troquei tudo. Só uso mesmo a bengala pra dá mais apoio e batê pelna pra lá e pra cá. Num tem jeito, eu num sossego...

Morei com a Donlita enquanto ela viveu, coitada. Sofreu, viu. Porque despois de viúva sua pensão num dava pra nada. Se num fosse meu dinheirim da posentadoria, nem sei como a gente chegava ao fim de uns mês mais apertado. Nós duas lá, filmes, ajudano o Leio. Ele logo se casô e continuô morano conosco, mais sua muié e os menino, cada um mais lindo que o outro. Sabe, outro dia me dei conta que os fio do Leio são os primeiro neto preto de Grória e João. Meus também, né não? É Ina pra cá, Ina pra lá, num me dão sossego. A caçulinha num dorme sem meu chamego. Quem faz a mamadeira mais docinha e morninha? Quem assa o bolo mais gostoso? Quem embala o sonim no braço gordo sem cansera?

Pois a Donlita foi ficano esquecida, confusa, sem animação de levá nada a cabo, sem querê nem pintá os cabelo. Os menino  preocupado, eu num podia tirá as vista  dela. Inté que suas força minguaro demais, e com elas a cabeça parô de vez de funcioná. Virô que nem uma criança. Isaulina, me acode que eu tô com fome. Isaulina, me leva no banheiro. Isaulina, fica comigo que eu tô com medo de dormi... Triste fim de uma dama. Quando ela se foi, descansô.  E nossas lágrima secaro.

Continuei com o Leio, ajudano ele mais a muié dele a educá a fiarada. Ques menino bãos! A Cíntia, a mais veia dês, é meia topetuda. Arresorveu de estudá pra devogada. E agora ficô importante, doutora juíza, que nem o tataravô dela, percuradora num sei das quanta. Não entendo dereito o que ela tanto percura. Cismô com umas ideia isquisita sobre o meu trabaio, anda falano umas coisa que eu num gosto nem de ouvi falá. Fiquei braba mesmo com ela. Ó, pode ser fio da Neusa, pode ser fio da Mana, pode ser fio da Donlita ou do Leio, pode enrolá que eu desenrolo...

A Cíntia inventô de me levá num lugá pra falá numa tale de começão não sei das quanta, contá minha história, pra mode dá depoimento de num sei quê, de trabaio doméstico, herança dos escravo e num sei mais quê. E eu sô lá bandida pra dá depoimento pras poliça? E eu lá sô rica pra tê herança de escravo? Falei co’ela pra levá o firme do Fubareco no meu lugá e pronto. Ele num disse que ia contá tudo no firme? Num firmô inté meu neversário de cento e dois ano? Antão!

Ah, dona Cíntia, larga de ser borrecida! Me deixa eu quieta aqui no sole que tá tão quentim. É só o que eu sô mesmo: uma preta veia aqui sentada ao sole... Para de me amolá e vai caçá selviço, menina!

Brasília, junho de 2014