O menino que não via o céu

José Rezende Jr.

O menino vivia olhando para o chão. Era por isso que ele não via o céu.

Não via sol, lua, estrela, arco-íris, disco voador...

Nada.

Também não via as figuras que as nuvens gostam de desenhar no céu:

cachorro, gato, elefante, girafa, jacaré...

Nada.

O menino só via o chão.

Não via nem o passarinho que voava sobre sua cabeça e o acompanhava aonde quer que ele fosse. O passarinho era o único amigo do menino. Mas o menino nem sabia do passarinho, porque vivia olhando para o chão.

O menino só tinha a roupa do corpo e um caixote com escova, flanela e graxa. O caixote, aliás, nem era dele, e sim do homem a quem entregava quase tudo do quase nada que ganhava trabalhando duro, de domingo a domingo.

O menino era engraxate. Por isso vivia olhando para o chão, procurando algum sapato necessitado de brilho.

– Vai uma graxa aí, doutor? – era só o que menino sabia dizer.

E era só nessas horas que ele levantava os olhos, à espera de uma resposta que na maioria das vezes era NÃO! E era nessas horas que ele via o quanto as pessoas podem ser grandes, tristes e zangadas. Assustado, o menino olhava de novo depressa para o chão, porque no chão, em vez de caras grandes, tristes e zangadas, ele só via pés apressados. E, de vez em quando, um sapato necessitado de brilho.

– Vai uma graxa aí, doutor?

O menino tinha medo. Sentia-se muito pequeno, menor que um pé de sapato. Um insetozinho de nada que qualquer pessoa podia pisar, por descuido ou por maldade.

Às vezes, de tanto olhar para o chão, o menino achava uma moeda ou um sanduíche comido só pela metade. Uma vez encontrou uma flor, que pensou em oferecer para a professora ou para a menina mais bonita do mundo. Mas o menino não ia à escola e não conhecia nenhuma menina mais bonita do mundo.

O menino não tinha nada. O menino não tinha ninguém. Só o passarinho, mas nem sabia que tinha.

Até que um dia, o menino viu a bola amarela brilhando no asfalto escuro. Aproximou-se bem devagarinho, pé-ante-pé, um passo de cada vez, desconfiado. Olhou em volta, com medo que alguém reclamasse a posse do brinquedo perdido. Mas ninguém reclamou. A bola não tinha dono. Ou melhor, agora tinha: era o menino.

Feliz que nem criança, sendo que era de fato criança, o menino saiu por aí chutando a bola, driblando todos os pés e pernas que encontrava pela frente, sem olhar para cima, sem ver as caras enormes de espanto e raiva.

– Vai trabalhar, menino – gritou um homem.

– Nada disso, lugar de criança é na escola – respondeu uma mulher.

– Se todos forem pra escola, quem vai engraxar nossos sapatos? – perguntou outro homem.

Mas o menino nem ouviu. O menino não tinha olhos para mais nada que não fosse o primeiro brinquedo que ganhou em toda a sua vida. De tão feliz, o menino deu um chute tão forte que a bola subiu, subiu, subiu... Foi então que o menino olhou para o céu pela primeira vez. Mas nem viu o céu. Não viu sequer o passarinho, apesar de quase pousado em sua testa.

Só viu a bola subindo, subindo, subindo...

O menino continuou olhando para o alto, sem ver céu nem passarinho, esperando a bola voltar.

Esperou, esperou, esperou... até doer o pescoço. E o céu, nada de devolver a bola. Até que o menino cansou de esperar. Baixou a cabeça e olhou outra vez para o chão. E viu um monte de sapatos necessitados de brilho. E um monte de pés impacientes.

– Perdeu o brinquedo, seu preguiçoso? Bem feito – zombou um homem.

– Vem trabalhar,  menino – gritou o outro.

E naquele dia o menino trabalhou, trabalhou, trabalhou. Até quase esquecer que, por alguns minutos, havia sido criança.

De noite, exausto, o menino sentou-se na calçada, esticou o corpo sobre a cama de papelão e fechou os olhos, para ninguém rir de suas lágrimas. O menino chorou que nem criança, sendo que era de fato criança.

Morrendo de dó do menino, o passarinho assobiou uma canção alegre. Mas o menino continuou triste. De tanta tristeza, o passarinho voou para longe pela primeira vez na vida. E pela primeira vez na vida o menino ficou sozinho de tudo.  O menino agora não tinha nem passarinho.

O menino, então tomou uma firme decisão: nunca mais olhar para o céu. E nunca mais olharia, se não fosse aquele barulho esquisito, que começou pequenininho e veio crescendo... crescendo... crescendo...

flap flap flap flap flap flap flap flap flap flap flap

Até que o mundo escureceu. O menino olhou para o céu, mas nem viu o céu, porque o céu estava escondido por uma nuvem gigante e veloz, um borrão colorido e barulhento que vinha crescendo... crescendo... crescendo...

De repente, o menino sentiu o chão desaparecer sob seus pés, e já no instante seguinte voava nas asas de mil pássaros de todas as cores e cantos, que o velho amigo passarinho fora chamar às pressas. E o menino voou, voou, voou... E viu o céu pela primeira vez, com tudo a que tinha direito:

estrela

arco-íris

nuvens em forma de bicho

e até disco voador.

Viu o restinho do sol se pondo de um lado do céu e a lua nascendo do outro, em forma de uma grande bola amare... Ops! Mas não era lua coisa nenhuma: era a bola, era a bola amarela, que imaginava perdida para sempre. O menino apressou os pássaros e voou em direção à bola, como se o brinquedo fosse a coisa mais preciosa do mundo. Tão preciosa que o menino fechou os olhos, abraçou a lua com toda a força e jurou nunca mais deixá-la escapar.

Quando abriu os olhos outra vez, o menino estava deitado na calçada. Tinha a bola amarela firme entre os braços, como se fosse o goleiro da Seleção na final da Copa do Mundo.

De tão feliz, o menino nem viu a multidão de pés apressados que podia esmagá-lo a qualquer momento, por descuido ou por maldade. O menino já não tinha medo.

Espreguiçou-se e olhou para o céu. Viu primeiro o amigo passarinho; depois, as nuvens desenhando figuras desconhecidas:

escola

livros

cadernos

outros brinquedos além da bola.

O menino não sabia o que eram todas aquelas coisas, mas decidiu ir em busca de cada uma delas. E foi. Olhando sempre em frente.