O escravo moderno

Marcelo Rubens Paiva

A mãe de um amigo em Alagoas morava numa casa enorme e paradisíaca, numa praia afastada, na Linha Verde. Obesa, mal caminhava. Precisava de uma tropa para deixar tudo em ordem. Seus filhos já crescidos e casados viviam em outras cidades. Mas ela fazia questão de manter a casa pronta para a grande família, como  se todos ainda morassem com ela. Talvez  na esperança de que voltassem um dia.  Ou por inércia...

Vira e mexe tinha uma criança diferente morando lá. Às vezes, cinco crianças. Com as domésticas, formavam uma fauna de trabalhadores pequenininhos. Ela dava teto, comida, saúde, saneamento, banho e até educação àqueles sem lar, sem família, sem nada. Os chamava a todo instante. Fulano, pega uma água. Fulano, o gelo. Fulano, derrubei, limpa aqui. Fulano, limpa o cocô do cachorro. Desentope meu sanitário. Fulano, compra jornal, compra sorvete, compra sabão, vai na farmácia, vai na venda, vai na padaria, vai no banco, volta pra farmácia, varre o quintal, colhe as flores, pega um cinzeiro. Me abana.

Como muitos senhores de escravos, há mais de cem anos atrás, pensava que fazia um bem a eles: dava um teto, um lar, comida, uma chance. Que formavam todos uma família. Seria melhor ao fulano estar ali, levando água, gelo, limpando o chão, o cocô do cachorro, desentupindo a privada, indo e voltando da farmácia, padoca, venda e banco, comendo do bom e do melhor, com roupa limpa e até um caderno e lápis, do que vadiando pelas ruas de uma região violenta sem água potável e com esgoto a céu aberto, na periferia de Maceió. Ali ele tinha perspectiva. Ali ele era bem tratado. Ali ele era alguém. Só que fulano não ganhava salário. Aí também é demais...

Foram tantos séculos de escravidão. Índios e negros. Não só o europeu como algoz. Índios que escravizavam índios de outras nações indígenas. Negros que vendiam negros para traficantes em Angola. Brancos em bandos que não conheceram outro sistema senão o de subjugar a liberdade de outro com correntes, castigos, chicotes ensanguentados. E, mesmo quando era proibido importar negros, traficantes os traziam às escondidas, descarregavam em portos clandestinos, num comércio que gerava muita, mas muita grana.
Foram tantos os séculos em que tinha  mais escravos do que libertos no Brasil.

Nas ladeiras de Minas, nas usinas de Recife, nas fazendas do Vale do Paraíba, arrancando cana, ouro, café, amamentando a filha da patroa, carregando a patroa, carregando o patrão, charqueando, na plantação, na casa-grande, servindo, levando liteiras nas ruas de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Ouro Preto, sendo surrado em pelourinhos se desobedecesse. Tanto sangue rolou, tanta saudade de casa, tanta dor... Para empurrar uma economia que era toda movimentada pela escravidão. Para movimentar uma vida social que não conhecia outra forma de se relacionar.

Foram tantos séculos que não nos acostumamos sem eles.

O limite do absurdo eram os brancos que alugavam seus negros para outros brancos, ou os negros autônomos que se alugavam para brancos, ou negros de brancos que alugavam e meavam os lucros com seus negros a outros brancos, para fingirem-se de seus escravos, nas ruas da capital, em eventos sociais, festas, lugares públicos, o que daria status ao membro da elite que determinava que subia no conceito quem tinha mais escravos aos pés.

Tudo isso se encerrou em 1888? Não, não acabou. Nem em 1988. Ainda é uma estagnação visível na engrenagem da cadeia social, uma alavanca do mercado, o combustível da economia. É costume. É cultural. A alforria não se completou até hoje. A escravidão está nítida. Ela não se extingue. Ela não desaparece. Nós é que, de tão habituados, não conseguimos enxergar.

Ela está nas relações trabalhistas não formalizadas, em prédios com dois elevadores, o social e o de serviço, nos cubículos de empregadas. Até pela lei, as domésticas não têm os mesmos direitos de não domésticos. Está no aeroporto, no shopping, no supermercado, na pracinha: enquanto a patroa fala no celular, a sua doméstica vigia, acode e acalma o filhinho.

O avô de um conhecido tinha uma fazenda perto de Porto Feliz, Sorocaba. Plantava cana e café, cujas colheitas se revezavam, uma na primavera, outra no outono. Pelos pastos, criava gado. Era uma fazenda de mil alqueires, enorme. Dava dinheiro. Tinha agrônomos, especialistas, administradores. Era um negócio.

Tinha uma sede enorme, em que ficavam os filhos do avô do meu amigo, as noras, com os vinte netos e mais convidados. Muita gente da própria região trabalhava lá, especialmente como domésticos: a cozinheira negra que mandava mais do que a avó, o mordomo gay, que servia de jardineiro e motorista, as arrumadeiras. As empregadas domésticas da família, que morava entre São Paulo e Sorocaba, como a babá do  meu amigo, eram de Porto Feliz. Eles as “importavam”.

No entanto, o avô precisava de mais  trabalhadores braçais que aguentassem  o tranco. Porto Feliz era uma cidade pequena, não tinha mão de obra suficiente. Nos anos 1950, ele importava trabalhadores  de Alagoas, que vinham num pau-de-arara. Eram os “alagoanos”, e sua chegada era um acontecimento. Era como índios chegando na Corte Portuguesa. Ou negros desembarcando nos portos de Angra, Ubatuba,  Rio, Salvador.

Os solteiros ficavam numa grande pousada de madeira, chamada de Clube dos Solteiros. Para os casados, tinha muitas casinhas enfileiradas, com varanda, sala, dois quartos, cozinha e banheiro, tudo muito digno.

Muitos nunca tinham visto uma privada na vida. Nos primeiros dias, a avó e as tias do meu amigo os ensinavam a usar. Alguns se confundiam e colocavam lenha na privada e acendiam. Outros bebiam água dela. A família se sentia bem em dar conforto e um rastro de civilização para aqueles sertanejos que não sabiam acender a luz num interruptor, não entendiam o que era uma tomada, não sabiam trocar uma lâmpada.

Os trabalhadores não faziam contas, não estavam acostumados a relações comerciais, manejar moeda, troco, poupar. Para facilitar a vida de todos, o avô criou uma moeda, chamada cariri, o nome da fazenda, que imprimia numa gráfica de Sorocaba. Uma moeda paralela. Que só era aceita na venda da fazenda, uma lojinha da avó, que ficava no Clube dos Solteiros, e num supermercado na entrada de Eldorado, que era do  pai do meu amigo.

Para todos, era uma solução brilhante. Dinheiro não circulava à toa. Evitava-se que aquela pobre gente, que só conhecia o escambo, gastasse em produtos desnecessários, especialmente em pinga. No entanto, a moeda, como toda a moeda, passou a ter câmbio, a ser trocada na cidade pela verdadeira moeda, o cruzeiro.

Trabalhadores trocavam cariris por cruzeiros. Comerciantes começaram a aceitar cariris com deságio. O avô criara um país dentro de outro. Trocava-se cariri por cruzeiro na praça à luz do dia. Logo, logo, a população criou uma bolsa de negócios informal para especular com as moedas.  A confusão aumentou tanto, que a família teve que extinguir a moeda. Mas como fazer para pagar os empregados sem pagar? Inventou uma caderneta nominal. Que só era possível usar na lojinha do Clube dos Solteiros da avó ou no supermercado do pai do meu amigo.

O dinheiro não saía dos cofres. Só um  de mentira.

Se o funcionário quisesse dinheiro de verdade, papel-moeda, cruzeiro mesmo, para gastar como bem entendesse, não tinha. Seu salário era uma caderneta, um livreto. Reclamar com quem, com o prefeito? O avô era o prefeito. E o pai do meu amigo, o juiz do Fórum mais próximo.