Carta de Moçambique

Mia Couto

Escrevo este texto como uma carta dirigida a um amigo. Como se o destinatário fosse um velho companheiro que desconhecesse o lugar em que vivo. Mais do que dar conta de mim, pretendo transportar para este texto um pouco do meu país, Moçambique. Parto do princípio que nos separam longas ignorâncias e persistentes fantasmas. Uma certa narrativa portuguesa que glorifica um passado heroico faz questão em eleger os descobrimentos como seu tema central.  Na verdade, nós nunca fomos “descobertos”. Se quisermos uma História escrita  a várias vozes e com múltiplos autores,  os países de língua portuguesa só agora se estão descobrindo mutuamente. O que  mais nos afasta não é a geografia, mas o preconceito. O pensarmos que já sabemos. Nós fomos tanto o passado uns dos outros, que não entenderemos a nós mesmos se nos preservarmos alheios e distantes.

Uma carta é um modo de trazer para  perto quem está longe, uma forma de converter o leitor num escutador. Assim construímos a ilusão de que não escrevemos, mas falamos. E eu vou falar desta  terra que se crê irmã do Brasil mas que,  ao mesmo tempo, permanece tão longínqua. Na verdade, ela não é distante apenas dos brasileiros. É distante ainda de si  mesma, repartida por percepções tão  diversas como se fosse uma nação feita  de mil nações. Dessa doença sofre, afinal,  o Brasil. E sofrem todas as nações.

Talvez eu pudesse convidá-los para uma  viagem. E fossemos juntos a um lugar remoto, longe deste mundo que acredita ser global. E que acredita estar a viver num único tempo chamado de modernidade. É num lugar remoto onde muitas vezes trabalho como biólogo. É uma pequena aldeia costeira chamada Palma, no extremo Norte de Moçambique. Há anos que avalio nessa região os impactos ambientais de um projeto de exploração de gás natural.

Essa pequena aldeia vive dentro de si a fronteira dos tempos e sofre o drama de se ver projetada na lógica de uma imposta modernidade. Este lugar serviu de inspiração para o meu último romance, uma história baseada numa terrível experiência cuja vivência partilhei com a aldeia. Certa noite fui acordado por um camponês que me disse estar “lá fora um morto”. Saí estremunhado sem adivinhar que aquele encontro macabro que eu queria evitar seria apenas o início de um drama bem maior. Enquanto caminhava no escuro, o camponês disse-me o seguinte: “eles ainda devem andar por aí”. “Eles?”, perguntei já em murmúrio. “Sim, eles, os leões”. O homem morto era apenas o primeiro de uma série de 24 pessoas que, num espaço de quatro meses, foram devoradas por leões. Os leões acabaram por ser abatidos. Mas a aldeia continua a ser devorada. A ser devorada pelo Tempo. Em todo o mundo, o Tempo fala hoje uma única língua, obedece a um único modelo de pensamento.

Nas imediações deste pequeno povoado que fica no fim do fim do mundo foram descobertas das maiores reservas de gás natural do planeta. A invisível aldeia de Palma está hoje na berma de uma cratera que se abre entre a modernidade e a tradição.

Quero, pois, falar-vos da aldeia de Palma. Sei, à partida, que retratar um lugar, qualquer que ele seja, é caminhar em terreno minado. Os lugares não são da ordem da geografia, mas da linguagem. Guimarães Rosa sábia disso bem quando inventou um território que só era real porque era  da ficção.

Quando hoje se olha para os territórios  remotos de África é comum adoptar um olhar exótico e romantizar-se essa realidade tida como única e distante. Antes, desdenhava-se e desprezava-se. Agora, o modo de secundarizar os outros é achar-lhes graça como objetos exóticos. Podemos ter saltado de século. Não saltamos para fora do desconhecimento recíproco. O nosso mundo só será nosso se for feito de muitos mundos, todos eles reconhecíveis como sendo outros e, por essa mesma razão, como sendo nossos.

Pois na aldeia de Palma, a realidade é dura demais para ser idealizada. Naquele lugarejo ninguém escreve, quase ninguém fala português, as escolas só abrem em certos dias do mês, não há polícia nem hospital e até há pouco tempo não havia senão uma nebulosa presença do Estado.

Convido-vos agora a visitar comigo a pequena aldeia. Na aparência estamos longe do mundo da escrita. No entanto, assim que entrássemos nessa aldeia seria possível, para quem o soubesse fazer, ler o espaço construído como se lê um livro. Tudo ali está inscrito como um código, uma mensagem. As casas estão posicionadas de forma a que se saiba que tipo de família ali vive. Essas inscrições no chão e nas árvores atuam como sinais sagrados de proteção familiar. Os panos das mulheres, postos a secar ao sol, dizem quem é cada uma delas pelo simples padrão do seu desenho.

Quando vos apresentasse o chefe da aldeia, veriam as tatuagens no seu rosto. Quem soubesse ler essas escarificações, entenderia que havia ali a clara intenção de um texto. E quando finalmente as pessoas se colocassem frente a frente, veriam que o modo de cumprimentar era bem mais uma simples saudação. A maneira como se aperta a mão, como se demora o gesto nesse estar mão na mão, a exibida deferência do braço esquerdo segurando o braço direito  (é o modo de mostrar como o braço do outro pesa mais do que o nosso). Depois, quando se iniciassem as conversas, o modo como se distribuem as cadeiras, a sequência com que se ocupam os lugares, tudo isso são sinais que são produzidos para serem lidos. Tudo isso são modos de  traçar fronteiras, definir hierarquias e  ordenar o caos.

Não pretendo recuperar uma visão folclórica de uma realidade tida como exótica. O que eu quero dizer é que há universos humanos que só se sabem dizer na oralidade. E esses universos podem não saber escrever no nosso reconhecido alfabeto. Mas eles escrevem, e escrevem-se de outros modos. A terra, os panos, os gestos, os corpos, tudo isso são páginas onde a oralidade desenha as suas próprias caligrafias.

O mês passado, nesse mesmo lugar, nessa aldeia de Palma, um pescador veio à minha tenda para se queixar de uma injustiça alegadamente praticada por uma companhia petrolífera. O pescador, chamado Amade Juma, tinha estabelecido um contrato para trabalhar na abertura de uma estrada. Amade é um dos poucos que ali sabem falar português. Mas ele não sabe ler nem escrever e por isso usou como assinatura uma cruz em cima daquilo que lhe disseram ser o seu nome.

O pescador trabalhou na primeira semana. Na segunda semana, não compareceu ao serviço e mandou em seu lugar o cunhado. Na terceira semana, como estivesse a chover, substituiu o cunhado por uma das esposas. Como os patrões reclamassem, ele substituiu a esposa por duas esposas mais jovens. Os patrões voltaram a reclamar e convocaram Amade para lhe declarar que ele não estava a cumprir o contrato.

– E por quê?, perguntou o pescador.

– Porque você anda muito ausente.

O homem ficou atónito: ausente? E parecia que se estava a falar de uma outra pessoa.

– Ausente?, voltou a perguntar. Então eu não estive sempre presente? Houve dias que tive que ir pescar, e veio o meu legítimo cunhado Antoninho; houve dias que choveu e as minhas mulheres não podiam trabalhar no campo, por isso vieram elas. Mas nunca deixei de vir trabalhar.

Estava claro: para ele, o compromisso tinha sido respeitado. Porque o acordo havia sido firmado não com uma pessoa singular mas com toda a sua família. Em Palma, a família – e não o indivíduo – é a entidade que responde perante o mundo.

Nesse mesmo dia, fui chamado por um dos representantes de uma multinacional que dirigia o projeto de prospecção de gás natural. O homem apresentou-me a seguinte queixa: este povo daqui é muito preguiçoso, teremos que contratar gente do Sul. Essa gente do Sul já há muito tempo que vive a cultura do trabalho assalariado e sabe o que é respeitar contratos.

Eu observava tudo aquilo com tristeza, sabendo que tudo o que fizesse de pouco valeria. Porque aqueles mal-entendidos mostram como universos culturais diferentes se tocam mas estão distantes e não sabem falar uns com os outros. O ideal seria que esses universos tivessem tempo para se ouvirem e negociarem convivências. Mas a economia de mercado tem pressa. E o pescador Amade Juma e a aldeia de Palma correm o risco de serem cilindrados por razões do investimento e da geração de lucro.

Regressei à mesma região um tempo depois. E visitei uma outra aldeia, igualmente na costa. Fui ali ter porque o mesmo Amade de Palma me pediu para se encontrar ali comigo. Um cunhado seu tinha sido acusado pelas autoridades locais de desrespeito para com os investidores estrangeiros. Ele tinha-se excedido numa discussão com as mesmas autoridades e injuriara aqueles investidores. As autoridades locais julgaram que era preciso tomar medidas para tranquilizar os estrangeiros. Um “tribunal popular” iria julgá-lo no dia seguinte. Autorizaram que eu assistisse ao julgamento. O “tribunal”, chamemos-lhe assim, era um dos três únicos edifícios construídos em alvenaria e escolhera-se aquele cenário para emprestar dignidade à instituição. Mas era melhor que o não tivessem feito. O estado do pequeno edifício era da mais miserável decadência. Havia rombos no telhado de zinco, não havia portas nem janelas. Para mim seria preferível terem escolhido uma das palhotas de colmo da aldeia. Todavia, na aldeia, os lugares são medidos por outros critérios. E aquele edifício albergava espíritos vindos de muito longe e de há muito tempo.

No início da cerimónia, porém, tudo sugeria a mesma solenidade e o mesmo rigor com que a justiça se apresenta em qualquer lugar do mundo. Os próprios juízes assumiam o formalismo, o protocolo e as vestimentas de um tribunal europeu.

A abrir a sessão, os juízes fizeram questão em exibir os volumosos livros do código civil. Uma velha e enorme máquina de escrever ecoava pausadamente, para susto de Amade, que nunca tinha visto tal engenho. Toda aquela representação mostrava ao réu que ele tinha chegado a um outro mundo. Nesse outro mundo, ele era frágil e estranho. Do outro lado, se alinhavam os que tinham poder. Do outro lado, perfilavam-se os que não só sabiam escrever como o faziam com uma máquina cheia de escuros e ruidosos dentes. No início, os representantes da Lei do Estado falaram apenas em português. À medida que o julgamento avançava, porém, a língua local, o kimwani, foi substituindo o idioma português. O edifício podia ter os danos e as fraturas que tivesse. Porque o idioma oficial remendava essas lacunas. Esse idioma era um outro edifício, com mais tecto, com mais portas, mas talvez com menos janelas.

Rapidamente, porém, aquela representação foi resvalando para uma outra cerimónia, mais solta, mais espontânea e mais dialogante. A máquina de escrever adormeceu e os dedos do secretário passaram a estar disponíveis para o gesto. Pouco a pouco, todos foram deixando de falar em português. Pé ante pé, a cultura local foi tomando conta da encenação. E a lei moderna acabou sendo engolida pelas regras do povoado. Uma proposta de sentença foi, enfim, apresentada. Não para ser imediatamente decretada, mas para ser discutida. E foi discutida não apenas com o réu mas com toda a família que o acompanhava. Não se debatia a culpa e a respectiva punição. Negociava-se, sim, a reposição do dano infligido. E porque a sentença era para ser negociada e não promulgada, a palavra falada valia mais do que o papel. No final, porém, o formalismo oficial voltou a imperar. A máquina de escrever voltou a funcionar e em português se registou a invulgar decisão: Amade foi condenado a entregar um cabrito a multinacionais investindo em África.

Falei-vos, meus amigos brasileiros, de uma aldeia da costa de Moçambique. Na verdade, por via desta aldeia, falei-vos de todo o meu país. Dos muitos mundos que esse país tem. Gostaria que dessa visita ficasse o recado de que o mais importante não é o que a viagem nos mostra, mas o quanto ela nos sugere os mundos que não vimos. Contra essa cegueira escrevo. 

A minha intenção é mostrar que é preciso descolonizarmos não apenas as nações mas o olhar com que analisamos essas nações. É preciso emancipar as teorias revolucionárias que se apresentavam como sendo as únicas vias de emancipação. Experimentamos essa importação de modelos de análise em Moçambique. Eu mesmo assimilei a abordagem marxista que reduzia à luta de classes um sistema de domínio que, para além da exploração económica, vivia do desprezo arrogante de outras culturas e outras civilizações.

Quando há mais de um século se iniciaram movimentos de reclamação dos direitos humanos, a grande preocupação era a condição dos trabalhadores oprimidos e explorados pelo capitalismo. Esse movimento de contestação centrou-se em três preocupações nucleares: nas razões políticas e sociais da opressão económica na situação dos trabalhadores, em  particular dos operários e, secundariamente, dos camponeses (entendidos como meros aliados do operariado) na condição vivida na Europa, então centro  do capitalismo.

Com o tempo, essa contestação foi sendo simultaneamente diluída e alargada. Diluída porque se generalizou a ideia de que não há alternativa para o capitalismo. O sistema renovou a sua hegemonia nas vestes neoliberais. A contestação foi alargada porque outros grupos sociais se juntaram à luta pelos seus direitos. E sobretudo porque essa reivindicação se estendeu a todos os continentes. A luta dos oprimidos e marginalizados foi, enfim, alargada e diluída porque a hegemonia do capitalismo se generalizou do ponto de vista social e geográfico.

Parto do pressuposto de que, em Moçambique, é ainda demasiado evidente aquilo que surge disfarçado em muitos outros países: o modo como se lança para o abismo do invisível aquilo que é a cultura e a religião dos “outros”. Esta operação constitui, desde há muito, uma das agressões maiores do capitalismo (escrevo “capitalismo” com alguma hesitação, porque o capitalismo se batizou hoje com um não-nome). Vivemos em Moçambique uma ordem que foi concebida nos padrões dominantes da cultura do colonizador. Esta imposição de um sistema de lógica e de valores é um crime que não aparece nos jornais. Nem se inscreve, em geral, nos programas de solidariedade entre os povos de diferentes geografias.

Um entendimento fundado na cultura dos sistemas de domínio internacional: era disso que eu queria falar-vos, nesta breve carta.  E tudo isto de que falei se resume ao convite de conhecer não uma realidade abstracta, mas a vida concreta de pessoas concretas. Como o pescador Amade e o seu cunhado, nas arredores de Palma.