Prefácio

Milton Hatoum

O ferro em brasa que firma as letras  iniciais do proprietário do gado marca  igualmente o vaqueiro.
Xico Sá

Os leitores de Memórias póstumas de Brás Cubas talvez se lembrem da personagem dona Plácida, uma das mulheres mais sofridas e humilhadas da literatura brasileira.

Filha natural de um sacristão e de uma doceira, ela perdeu o pai aos dez anos, casou aos quinze ou dezesseis, enviuvou algum tempo depois, e teve de sustentar a filha de dois anos e a mãe. Dia e noite ela fazia doces, costurava, “e ensinava para crianças do bairro, a dez tostões por mês”. Quando a mãe morre e a filha foge com um sujeito, dona Plácida se sente abandonada e desamparada:

Não tinha mais ninguém no mundo e estava quase velha e doente.

Trabalhou e morou mais de um ano na casa de Virgília, e quando esta se casou, Plácida viveu “como Deus foi servido”, e “tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola...”.

Em vez de esmolar na rua, ela passa a cuidar de uma casa, onde Virgília – esposa de Lobo Neves – se encontra clandestinamente com o amante Brás Cubas.

No capítulo LXXV desse romance, o narrador machadiano, com sua ironia cruel, diz a que veio ao mundo a personagem:
É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias:

– Aqui estou. Para que me chamastes?

E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam:

– Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama e no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.

Quase um século e meio depois da publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, muitas mulheres brasileiras ainda vivem como a personagem desse romance notável de Machado de Assis. A violência, a humilhação, o preconceito, enfim, o enorme sofrimento físico e moral de milhões de trabalhadores brasileiros ainda é a maior indignidade de um país que se pretende democrático. Aliás, são raros os países desenvolvidos e democráticos em que as pessoas mais pobres, sobretudo imigrantes, não são humilhadas diariamente, pois o sistema como um todo (político, econômico e cultural), em qualquer latitude e em graus variados, é uma máquina de sofrimento para muitos trabalhadores.

Alguns textos deste livro falam diretamente sobre o trabalho escravo em pleno século 21. Outros, com viés mais ficcional, podem ser lidos como breves relatos ficcionais, ou uma mistura de reportagem, crônica e memorialismo. Essa mescla de modalidades de discurso imprime uma dimensão intimista e, em alguns casos, poética a assuntos dramáticos e trágicos das sociedades brasileira  e moçambicana.

Há algo em comum na vida de um operário de uma fábrica de cimento-amianto em São Paulo; de um funcionário de uma empresa de exploração de gás no extremo Norte de Moçambique; de um vaqueiro numa fazenda do Ceará; de uma cozinheira nordestina numa casa paulistana; de um menino engraxate; de uma preta velha... Todos eles (crianças, homens e mulheres) são trabalhadores espoliados, que lembram a D. Plácida do romance de 1881.

O total descaso de tantos patrões e  empresários pelas leis trabalhistas e a desumanidade gerada por essa desfaçatez revelam uma das faces da barbárie brasileira e africana.

Na “Carta de Moçambique”, em que  ecoa com força a crítica de Oswald de  Andrade a nossas mentes colonizadas,  Mia Couto escreve:

Vivemos em Moçambique uma ordem  que foi concebida nos padrões dominantes da cultura do colonizador. Esta imposição  de um sistema de lógica e de valores é  um crime que não aparece nos jornais.  Nem se inscreve, em geral, nos programas de solidariedade entre os povos de diferentes geografias.

De fato, é preciso se libertar dos padrões dominantes da cultura do colonizador e “romper o etnocentrismo redutor da civilização industrial que controla toda a vida com a técnica subordinada à razão instrumental”, pois tudo isso degrada a alma e  o corpo do tecido social. É uma tarefa difícil, mas se inscreve no desejo ou no sonho de uma sociedade mais justa e solidária. E esse parece ser o tema mais ou menos implícito dos textos reunidos neste O verso do trabalhador.