Apresentação

A arte sempre retratou o universo do trabalho. Giuseppe Pellizza da Volpedo, Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Fritz Lang, Charles Chaplin, Bertold Brecht, Émile Zola, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, John Lennon, Chico Buarque, Arrigo Barnabé e uma inesgotável lista de nomes de diferentes países e momentos históricos enriqueceram o olhar sobre a tarefa de artesãos, agricultores e operários.

O Verso dos Trabalhadores nasce do desejo de incentivar a reflexão sobre as profissões, suas simbologias e impactos na vida contemporânea. A partir dessa ideia, convidamos diferentes autores brasileiros a fazerem literatura e fotografia especialmente para o projeto.

Algumas mudanças enriqueceram a proposta original e a primeira delas é a presença de Mia Couto, moçambicano que é íntimo do Brasil. Outras são os ensaios fotográficos Imigrantes, de Avener Prado, e Carvoeiros, de Tibério França, produzidos antes da concepção deste livro, e a crônica História de Dois Encontros, de Milton Hatoum, o único texto não inédito.

O elenco deste Verso conta ainda com José Luiz Passos, Marcelo Rubens Paiva, Eliane Brum, Clara Arreguy, José Rezende Jr. e Lya Luft. Ao todo, o livro traz nove textos, que vão da crônica à carta, passando pelo conto e pelo artigo, intercalados por sete ensaios fotográficos.

Afastado do fotojornalismo há vários anos, Walter Firmo reviveu o início da carreira ao aceitar a proposta de fazer Portuários. Xico Sá e Geyson Magno partilham um assunto que conhecem desde muito jovens: a vida dos Vaqueiros, embora trabalhem de forma independente e a leitura de um não tenha função complementar à do outro.

O processo migratório também foi escolhido por dois autores, refletindo o fluxo mais intenso de trabalhadores imigrantes no Brasil e as consequências desafiadoras desse fenômeno recente. Avener Prado mostra que a vida dos haitianos, senegaleses e dominicanos morando em abrigo não se parece tanto com a dos Bolivianos de Marlene Bergamo, em dias de domingo na praça Kantuta, em São Paulo.

Sem a finalidade de ilustrar o trabalho dos escritores, os fotógrafos puderam expressar livremente suas visões sobre a pauta combinada. Relações entre imagens, contexto e personagens retratados pelos escritores ficarão a critério do leitor. Ainda assim, percebemos que, de alguma maneira, os atores desses Versos mantêm certas semelhanças, como afirma Milton Hatoum, no prefácio, ao compará-los com os personagens dos escritores.

O resultado final traduz o conceito do Verso dos Trabalhadores. Verso entendido tanto como composição literária quanto o avesso, o oculto, o pouco visível ou até mesmo o escondido cotidiano de funcionários, colaboradores, servidores, terceirizados, frilas fixos e o que mais houver na nomenclatura do trabalho. Nomenclatura essa que, muitas vezes, serve mais para distinguir benefícios, jornadas e rendimentos do que funções.

Este livro, de distribuição gratuita, foi produzido com recursos de multas envol vendo ações do Ministério Público do Trabalho (MPT) aplicadas a empresas que infringiram leis trabalhistas, especificamente destinados a ações de comunicação. Todo o conteúdo e informações complementares podem ser consultados no site www.oversodostrabalhadores.com.br.

As narrativas e os enquadramentos de imagens foram concebidos sem qualquer necessidade de obediência a regras e conteúdos, por vezes superficiais, da notícia. Também passam ao largo do rigor dos estudos jurídicos e não têm necessaria- mente compromisso com engajamentos e reivindicações sindicais. Os textos de ficção aqui reunidos contribuem para uma melhor apreensão da realidade, mostrando novos ângulos e olhares, dando voz a afetos, dores e pensamentos.

Acreditamos que as fantasias literárias também alimentam cientistas, historiadores, pensadores, juristas e demais operadores da justiça. Desta forma também vemos este livro como um exercício contra o esquecimento de casos reais, das vítimas de omissões e de ilegalidades no campo do trabalho.

Rodrigo Farhat e Alessandro Soares
Brasília, abril de 2015